Trabalho análogo à escravidão persiste na cana-de-açúcar em São Paulo

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Mesmo com avanços tecnológicos e maior fiscalização, o setor sucroenergético paulista segue registrando casos de trabalho análogo à escravidão. Um levantamento com base em operações oficiais e reportagens de veículos como Ministério Público do Trabalho, Ministério do Trabalho e Emprego, além de publicações da Folha de S.Paulo, UOL e G1, mostra que o problema permanece estrutural, ainda que com mudanças na forma como aparece nas estatísticas.

Casos recentes confirmam continuidade do problema

Entre 2024 e 2026, foram identificados ao menos três casos diretamente ligados ao cultivo de cana-de-açúcar no estado de São Paulo, totalizando 134 trabalhadores resgatados.

Em 2024, uma operação conjunta coordenada pelo Ministério Público do Trabalho resgatou 85 trabalhadores nos municípios de Iacanga, Reginópolis e Morro Agudo. As vítimas atuavam no plantio de cana em condições degradantes, incluindo alojamentos precários, ausência de estrutura sanitária adequada e cobrança ilegal por transporte e alimentação.

Ainda em 2024, outro caso foi registrado em Guará (SP), com o resgate de 14 trabalhadores também vinculados à atividade canavieira.

Já em 2026, uma força-tarefa libertou 35 trabalhadores em Terra Roxa (SP), novamente em atividade ligada ao plantio de cana. As condições encontradas incluíam irregularidades trabalhistas graves e violações de direitos básicos.

Em 2025, embora o estado tenha registrado resgates de trabalhadores em condições análogas à escravidão, não foram encontrados registros públicos específicos envolvendo a cultura da cana-de-açúcar.

Comparação com a última década

Ao analisar os últimos dez anos, entre 2016 e 2023, o cenário mostra que a cana-de-açúcar permanece entre os setores com recorrência de casos, embora nem sempre explicitamente identificada nas estatísticas oficiais.

Dados nacionais do Ministério do Trabalho e Emprego indicam que o setor agrícola concentra parcela significativa dos resgates, e a cana figura historicamente entre as principais atividades envolvidas. Em 2023, por exemplo, mais de 250 trabalhadores foram resgatados em atividades relacionadas à cana em todo o país.

Para o estado de São Paulo, a análise cruzada de operações e registros aponta uma estimativa entre 8 e 15 casos de trabalho análogo à escravidão na cana ao longo da década, com um total aproximado de 200 a 500 trabalhadores resgatados.

Quando comparados aos números mais recentes, os dados revelam um fenômeno importante: entre 2024 e 2026, os três casos identificados representam entre 20% e 37,5% do total estimado de ocorrências da década. Em relação ao número de trabalhadores, os 134 resgatados correspondem a algo entre 26,8% e 67% do total dos últimos dez anos.

Mudança no perfil dos casos

O setor passou por transformações, especialmente com a mecanização da colheita da cana. No entanto, isso não eliminou o problema, apenas o deslocou.

Atualmente, os casos estão mais concentrados em etapas como:

  • plantio
  • serviços terceirizados
  • atividades sazonais

Outro fator recorrente é a presença de intermediadores de mão de obra, conhecidos como “gatos”, que recrutam trabalhadores, frequentemente de regiões mais pobres, e, os submetem a condições de endividamento e exploração.

Subnotificação e invisibilidade

Um dos principais desafios na análise dos dados é a subnotificação. Muitos casos não aparecem diretamente vinculados à cana-de-açúcar porque são registrados em categorias amplas como “agricultura” ou “lavoura”.

Além disso, a terceirização fragmenta a responsabilidade dentro da cadeia produtiva, dificultando a identificação direta do vínculo com o setor sucroenergético.

Outro fator relevante foi a redução de operações fiscais em determinados períodos, como em 2024, quando paralisações de auditores impactaram o número de ações em campo, segundo entidades como a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Problema estrutural

Apesar da redução aparente no número de casos registrados, os dados indicam que o trabalho análogo à escravidão na cana-de-açúcar não foi erradicado em São Paulo.

Pelo contrário, a concentração recente de trabalhadores resgatados em poucos casos sugere que a exploração persiste de forma estruturada, ainda que menos visível.

Considerações

A análise dos últimos anos revela que o setor sucroenergético paulista continua exposto a práticas ilegais de exploração do trabalho. A ausência de dados detalhados por cultura agrícola dificulta o monitoramento preciso, mas os casos confirmados e a proporcionalidade recente indicam que o problema permanece relevante.

Mais do que números absolutos, os dados apontam para a necessidade de:

  • maior transparência nas estatísticas
  • fortalecimento da fiscalização
  • responsabilização de toda a cadeia produtiva

Sem isso, o risco é que o problema continue existindo.